Eu queria fazer um filme nu, um filme no osso. O filme que resta depois da decomposição da carne do cinema, que é a ação, o movimento. Eu queria um filme quase estático, cravado como uma estaca, feito uma baliza, um marco, de maneira que o movimento fosse impulsionado pelo espectador, com suas próprias imagens. É o espectador quem tem que dar corpo ao filme. Seu próprio corpo.
Imaginei Fazedor de Montanhas numa época em que eu estava fascinado pela teoria do caos. Eu acabava de descobrir essa forma de ver o mundo que enfim reunia ciência, pensamento e poesia, e achei que seria um caminho excelente para tentar compreender um fenômeno tão aparentemente simples quanto o lixo. Posso dizer que minha produtora, Alcione Alves, e eu nos empenhamos a fundo na busca de pessoas que abordaram cada um dos níveis que desejávamos questionar: o lixo material; o ser humano tratado como lixo por uma sociedade depredadora; o lixo mental que cada indivíduo carrega; e o conceitual, que nos é imposto sem que tomemos consciência disso. Percorrendo esse universo caótico, esperávamos alcançar uma ordem, um princípio que integrasse todas essas dimensões. O resultado nos surpreendeu. A cada degrau, cumpria-se uma lei: lixo é tudo aquilo que não queremos ver. De pouco adianta, então, continuarmos a discutir sobre a camada de ozônio ou a reciclagem atômica, se não resolvermos antes nosso próprio lixo interior, origem de todos os outros, tal como a pedra que produz ondas concêntricas, ao ser atirada na água. Primeiro, a indiferença transforma as coisas em lixo; depois, começa a nos desumanizar até nos confundir com ele. Personagens sonâmbulos atravessam o filme, lembrando-nos dessa lei.
Fazedor de Montanhas é um ensaio, mais do que um documentário. Em sentido estrito, os participantes não foram entrevistados. Eles não eram peças de um quebra-cabeça. Foram tratados como atores, com roteiros detalhados, baseados nas idéias de cada um, e sob enquadramentos precisos. Todos rodaram dentro de uma caixa preta, assimilados uns aos outros, sem a menção de seus nomes e suas profissões. Almejávamos um continuum de palavras, do qual pudessem surgir diálogos interiores, associações de imagens, idéias em espiral, mais do que diretas.
Fazedor de Montanhas é uma expedição ao interior, uma anábase, no sentido grego. O lixo pode ser o pretexto. Lixo como fenômeno do espírito humano, e não como conseqüência da ação do homem.
JUAN FIGUEROA